Sou Lucas Radis, psicólogo clínico, integrante da equipe da Clínica Evidenciare em Londrina-PR. Trabalho com Terapia Comportamental Dialética (DBT) desde 2018, e a pergunta mais frequente em primeira sessão de família é: “o que eu faço quando ela está em crise?”. A resposta clínica é estruturada e tem ordem. O que parece intuitivo (tentar conversar, perguntar o porquê, oferecer solução, lembrar de valores) em desregulação ativa em geral piora. O passo a passo abaixo é o que ensinamos em grupo multifamiliar de DBT — adaptado para texto.
Antes do passo a passo: o que está acontecendo no corpo
Em uma crise de desregulação emocional intensa, o sistema nervoso entra em modo de luta-fuga-congelamento. Frequência cardíaca acelerada, respiração curta, tensão muscular, redução da função executiva (capacidade de planejar, decidir, considerar consequências). Nesse estado, o córtex pré-frontal está parcialmente offline. A pessoa não está “se recusando a pensar”; ela está com menos acesso ao pensamento estruturado. Tratar como falta de vontade é erro técnico.
Mindfulness clínico ajuda a treinar essa volta. Uma revisão de 2021 publicada em Archives of Clinical Neuropsychology sintetiza o que se sabe sobre como meditação mindfulness afeta controle atencional e desregulação emocional (Prakash, 2021) — efeito mensurável em reatividade emocional e capacidade de retomar regulação. Mas mindfulness é prática pré-crise, treinada em momentos calmos. No meio da crise, vale a sequência abaixo.
Passo 1: Segurança primeiro
Antes de qualquer coisa, garantir que a pessoa e quem está perto estejam seguros:
- Se há risco imediato de autolesão grave ou suicídio, levar a um pronto-socorro com saúde mental, ou ligar CVV 188.
- Remover do ambiente objetos potencialmente perigosos quando há histórico recente de autolesão.
- Não tentar contenção física a menos que haja risco grave imediato e treinamento — contenção em pessoa desregulada costuma piorar.
Segurança não é um passo só de emergência clínica. É também segurança emocional do ambiente: tirar olhos curiosos, baixar barulho, reduzir plateia. Crise com plateia escala.
Passo 2: Reduzir o estímulo
O sistema desregulado precisa de menos input, não mais. Práticas que ajudam:
- Diminuir barulho, luz, conversa cruzada.
- Tirar outras pessoas do ambiente, quando possível.
- Oferecer um lugar mais silencioso, com cobertor, garrafa de água gelada, fone.
- Reduzir perguntas. A frase “por que você está assim?” em crise ativa é tortura cognitiva.
Em casos com vulnerabilidade sensorial — especialmente em pessoas autistas, em desregulação no autismo — reduzir estímulo é o primeiro passo terapêutico, não opcional.
Passo 3: Validar a emoção (não o conteúdo)
Aqui o erro mais comum acontece. Familiares frequentemente confundem validar com concordar. Não é. Validar é mostrar que a emoção, do ponto de vista de quem está sentindo, faz sentido. Não exige que você concorde com a interpretação dela.
Frases validantes funcionais: “Eu vejo que você está com muita raiva agora.” “Isso foi difícil mesmo.” “Faz sentido você ter ficado assim com o que aconteceu.” “Eu estou aqui com você.”
Frases que pioram (invalidantes): “Não é pra tanto.” “Para de drama.” “Olha o tamanho disso, você é mais forte que isso.” “Calma, isso vai passar.” “Tem gente em situação muito pior.”
Repare: as invalidantes não são maldade. São reflexo cultural — a gente aprendeu a dizer essas coisas como se fossem cuidado. Em desregulação, elas adicionam dor à dor. Validar não consolida o problema; abre canal pra regulação.
Passo 4: Habilidades de tolerância ao mal-estar
A DBT ensina um conjunto de habilidades para atravessar a crise sem agir destrutivamente. As mais usadas em momento agudo:
TIPP — sigla em inglês para mudança rápida de fisiologia. Inclui: Temperatura (água gelada no rosto, segurar gelo, mergulhar mãos em água fria — ativa reflexo de mergulho e baixa frequência cardíaca), Intense exercise (uma corrida curta, polichinelo, queima energia), Paced breathing (expirar mais longo que inspirar, 4 segundos inspirando, 6-8 expirando), Paired muscle relaxation (tensionar e relaxar grupos musculares).
Distração funcional (ACCEPTS) — atividades, contribuir com alguém, comparar momentaneamente para fora da emoção, emoções opostas (ver algo engraçado), empurrar para depois, pensar em outra coisa, sensações intensas (alternativa ao corte: gelo, banda elástica).
Autorrelaxamento pelos cinco sentidos — algo que vê, algo que ouve, algo que toca, algo que cheira, algo que prova. Concreto, breve, sensorial.
Pensar no pró e contra de agir na emoção versus aplicar a habilidade — funciona melhor quando treinado antes da crise, com lista escrita.
Essas habilidades não tiram a emoção. Elas dão tempo. Tempo o suficiente para a onda baixar e a função executiva voltar.
Passo 5: Conversa só depois
Quando a pessoa está regulada — frequência cardíaca normalizada, respiração regular, função executiva acessível —, aí entra conversa. Análise comportamental do que disparou, mapeamento da cadeia, alternativas para a próxima vez. Em DBT chamamos isso de análise em cadeia, e é feita com a pessoa colaborando, não defendendo.
Tentar fazer essa conversa em crise ativa é o erro técnico mais frequente em famílias e em terapeutas iniciantes. Não funciona.
Passo 6: Plano por escrito
Cada pessoa em tratamento de desregulação intensa monta o próprio plano de crise — quais sinais de alerta antecipam crise, quais habilidades cada uma já testou e funciona, quem ligar, o que evitar. O plano fica num cartão visível ou no celular. Em crise, o sistema executivo não inventa: ele só lê. Por isso o plano precisa estar pronto antes.
O que não funciona em crise ativa
Uma revisão de 2017 publicada em Journal of Affective Disorders questiona pressupostos comuns sobre tratamentos de desregulação emocional, lembrando que várias intervenções intuitivas não têm o efeito que se supõe (Neacsiu, Smith & Fang, 2017). Na prática:
- Conversa longa em crise ativa. Função executiva offline; conversa frutifica depois.
- Racionalizar. “Você sabe que não é nada disso” não convence ninguém em emoção intensa.
- Punição imediata. Reforça o ciclo invalidante; o limite vem depois, com pessoa regulada.
- Comparações. “Seu irmão não faz isso” aumenta vergonha, não regulação.
- Tirar o que regula sem oferecer alternativa. Confiscar o que a pessoa usa pra se acalmar (mesmo que problemático) sem ensinar substituição funcional piora.
- Pedir promessa em crise. Promessa feita desregulado não vale; só serve pra adicionar culpa depois.
Quando levar a pronto-socorro
- Tentativa de suicídio em curso ou recém-ocorrida.
- Plano suicida claro com método e tempo.
- Autolesão grave (cortes profundos, ingestão de substância, ferimento sério).
- Estado de desorganização severa — desconexão da realidade, alucinação, agitação extrema sem retorno.
- Esgotamento total do repertório domiciliar quando o risco é alto.
Em qualquer dessas, ligar CVV 188 ou levar diretamente ao serviço de emergência com saúde mental.
Para quem cuida
No entanto, três coisas práticas valem aprender hoje:
- Suas próprias habilidades de regulação. Cuidador regulado regula. Cuidador em crise junto piora a crise do outro.
- Plano por escrito combinado em momento calmo.
- Grupo multifamiliar de DBT, quando disponível. Aprender as habilidades junto com a pessoa muda o desfecho.
A Clínica Evidenciare oferece DBT completa (terapia individual, grupo de habilidades, treinamento multifamiliar e coach por telefone) para desregulação emocional intensa. Se você ou alguém próximo está em sofrimento intenso, ligue CVV 188 (gratuito, 24h, sigiloso). Para agendar avaliação, escreva para [email protected].