Sou Lucas Radis, psicólogo clínico da equipe da Clínica Evidenciare em Londrina-PR. Recebemos com frequência uma pergunta direta: “O grupo multifamiliar serve para o nosso caso?”. A resposta honesta é que serve para muitos casos, não para todos — e a triagem importa, porque um formato com indicação errada gera frustração e, em alguns perfis, piora.
Este texto é um recorte clínico. O pilar sobre treinamento multifamiliar DBT explica o protocolo. Aqui mapeamos para quem ele é indicado, para quem não é, e o que costuma vir antes.
Indicação primária por perfil de paciente
A literatura clínica e a nossa experiência apontam quatro perfis em que o grupo multifamiliar tem o melhor retorno.
1. Adolescentes com autolesão ou ideação suicida
É o perfil mais estudado. Miller, Rathus e Linehan formalizaram a DBT-A precisamente para este recorte. Os critérios costumam ser:
- Adolescente entre 12 e 19 anos, em ambiente familiar (vive com pais ou cuidadores).
- Comportamento autolesivo recorrente (mais de um episódio nos últimos seis meses) ou ideação suicida ativa.
- Desregulação emocional intensa — crises de raiva, choro prolongado, retirada brusca, comportamento de risco.
- Pais ou cuidadores disponíveis para participar do grupo semanal por pelo menos seis meses.
A revisão sistemática de 2024 no Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology mostrou efeito robusto desse formato em redução de autolesão e ideação suicida em adolescentes. Em prática clínica de rotina, um estudo norueguês de 2024 confirmou os achados em serviço público de saúde mental (Syversen e cols., BMC Psychiatry, 2024).
2. Adolescentes com traços de borderline em consolidação
Há controvérsia diagnóstica sobre o uso da categoria “borderline” antes dos 18 anos, e isso não cabe neste recorte. Clinicamente, há um grupo de adolescentes com padrão pervasivo de instabilidade afetiva, impulsividade marcada, relações intensas e instáveis e medo de abandono — perfil que, mesmo sem fechar critérios formais de TPB, se beneficia do mesmo arsenal terapêutico. A entrada precoce no grupo multifamiliar costuma reduzir consolidação do padrão.
3. Famílias de adultos com TPB ou desregulação intensa
Aqui o formato muda. Para adultos, o protocolo de escolha é o Family Connections de Hoffman e Fruzzetti — 12 semanas, apenas familiares, sem o paciente no grupo (Hoffman e Fruzzetti, Family Process, 2005). O paciente segue em terapia DBT individual em paralelo. A família aprende as mesmas habilidades de regulação, validação e tolerância — para uso no ambiente doméstico.
Indicação clara quando:
- Paciente adulto com TPB ou desregulação emocional intensa.
- Convivência doméstica deteriorada (escaladas frequentes, ameaças de ruptura, exaustão).
- Familiar(es) buscando ajuda própria, não apenas para o paciente.
A evidência mais sólida do Family Connections vem do estudo multicêntrico de Liljedahl e colaboradores em 2019, que mostrou redução de carga subjetiva, depressão e raiva em familiares em diferentes intensidades de formato.
4. Cuidadores de pacientes com transtorno alimentar com forte componente de desregulação
Em revisão recente de 2024 no Healthcare, o tratamento multifamiliar baseado em DBT apareceu entre as intervenções com efeito consistente para anorexia nervosa em adolescentes com componente emocional intenso. Não é o protocolo isolado para transtorno alimentar — é parte de um tratamento multidisciplinar com nutrição, psiquiatria e, frequentemente, hospital-dia. O grupo multifamiliar entra como camada de regulação emocional e comunicação familiar.
Quando o grupo multifamiliar não é o caminho
A pergunta de quem não se beneficia é tão importante quanto a de quem se beneficia. Algumas situações exigem outro caminho clínico antes — ou em vez — do grupo multifamiliar.
Violência ativa no núcleo familiar
Quando há histórico recente ou em curso de violência física, sexual ou psicológica grave dentro do núcleo familiar, o grupo multifamiliar não é o formato indicado. O protocolo pressupõe um ambiente onde habilidades de comunicação possam ser praticadas; em contexto de violência ativa, isso não se sustenta. A prioridade clínica é proteção, encaminhamento jurídico-social quando indicado, e estabilização individual antes de qualquer integração familiar.
Descompensação psicótica aguda
Pacientes em surto psicótico, com sintomas positivos ativos (alucinações, delírios desorganizados) ou desorganização comportamental grave, não devem entrar em grupo multifamiliar como primeira linha. O protocolo DBT não é a intervenção primária para psicose aguda. Outros encaminhamentos (psiquiatria, internação se necessária, estabilização farmacológica) vêm primeiro. O grupo pode entrar depois, em fase de estabilização.
Uso de substância grave não tratado
Quando o paciente está em uso ativo de substância em padrão grave (dependência química com prejuízo funcional significativo), a literatura aponta que o eixo da substância precisa de estabilização paralela antes ou junto do grupo multifamiliar. Há protocolo DBT-SUD (DBT para uso de substância) que adapta o formato — mas isso exige avaliação específica.
Famílias indisponíveis para presença semanal
Multifamiliar com presença intermitente perde eficácia. Quando a configuração familiar não permite presença semanal por seis meses a um ano (turnos de trabalho incompatíveis, distância geográfica sem opção remota, conflito conjugal grave que inviabiliza presença conjunta), o protocolo precisa ser adaptado ou substituído. Em alguns casos oferecemos formato híbrido; em outros, a família entra em Family Connections apenas (sem o paciente no grupo) enquanto o paciente segue em DBT individual.
Recusa absoluta do paciente identificado
Em adolescentes, é comum haver resistência inicial. Isso não é contraindicação — em geral, manejamos a ambivalência nas primeiras semanas e o adolescente engaja. Recusa absoluta, persistente após três tentativas de engajamento individual, sinaliza que o tempo do paciente não é agora. Família pode entrar em Family Connections em paralelo, e o paciente segue em terapia individual até estar disponível para o grupo.
O que vem antes do grupo
Em muitas famílias que chegam ao consultório, o grupo multifamiliar é parte do plano, mas não o primeiro passo. Antes do grupo, costumamos avaliar:
- Risco agudo — se há tentativa de suicídio recente ou autolesão grave, a prioridade é estabilizar. Terapia individual semanal entra primeiro; o grupo entra quando o paciente está em condição de aprender.
- Avaliação diagnóstica completa — não fechamos indicação de DBT sem avaliação. Comorbidades importantes (TDAH, transtorno bipolar, TEA, transtorno alimentar) mudam a estratégia.
- Disponibilidade da família — temos uma conversa franca com pais e cuidadores sobre o que o protocolo exige antes de aceitar família no grupo. Compromisso de presença é critério.
- Aliança terapêutica inicial — o paciente precisa estar minimamente engajado com a equipe antes de entrar no grupo. Primeiras quatro a oito sessões individuais costumam servir a esse fim.
Como conduzimos a avaliação na Evidenciare
Quem nos procura com interesse no grupo multifamiliar passa por uma avaliação inicial que cobre:
- Histórico clínico do paciente identificado (sintomas, gatilhos, tentativas anteriores de tratamento).
- Configuração familiar (quem mora junto, quem cuida, quem participa do dia a dia).
- Disponibilidade e motivação dos familiares para presença semanal.
- Comorbidades e necessidade de outros encaminhamentos (psiquiatria, neuropsicologia, nutrição).
- Risco agudo presente e plano de manejo.
Ao fim da avaliação, devolvemos a indicação clara: grupo multifamiliar agora, grupo multifamiliar após estabilização, Family Connections para familiares com paciente em DBT individual, ou outro caminho. Não vendemos o protocolo onde ele não cabe.
Para refletir antes de buscar o grupo
Se você é familiar e está considerando inscrever a família no grupo multifamiliar, vale responder com honestidade:
- Há disposição de toda a casa (não só o paciente) para mudar padrões de comunicação?
- Há disponibilidade de tempo semanal real por seis meses a um ano?
- Há tolerância a desconforto inicial, sabendo que o grupo expõe padrões que normalmente ficam invisíveis?
- Há entendimento de que o grupo é aula, não desabafo?
Se a resposta a alguma delas é não, vale conversar com a equipe antes da inscrição. Em alguns casos, o caminho é preparar a família por outros formatos primeiro.
A Clínica Evidenciare oferece o grupo multifamiliar DBT em Londrina-PR e atende adolescentes e adultos. Para avaliar indicação, escreva para [email protected].
A Clínica Evidenciare atende com protocolos baseados em evidência. Se você ou alguém próximo está em sofrimento intenso, ligue CVV 188 (gratuito, 24h, sigiloso).