Sou Lucas Radis, psicólogo clínico, mestre em Análise do Comportamento, e faço parte da equipe da Clínica Evidenciare em Londrina-PR. Há sete anos trabalhamos com pessoas em desregulação emocional intensa, transtorno de personalidade borderline, tendência suicida e adolescentes em crise. Em todo esse tempo, uma constatação se firmou: tratar o paciente sem incluir a família que vive com ele reduz, em muitos casos, a chance de o protocolo funcionar.
O treinamento multifamiliar DBT é a parte da Terapia Comportamental Dialética que responde a essa constatação. Aqui na Evidenciare oferecemos o grupo de habilidades em formato multifamiliar — pais, cônjuges, irmãos e cuidadores entram na mesma sala que o paciente e aprendem, lado a lado, as habilidades que vão precisar usar em casa.
Este texto é a porta de entrada do nosso cluster sobre família e tratamento. Se você está procurando atendimento para um filho adolescente com autolesão, um cônjuge com diagnóstico de borderline, ou um familiar com desregulação emocional que esgotou as terapias tradicionais — vale entender o que esse formato propõe, de onde vem, e o que ele não é.
O que é treinamento multifamiliar DBT
QUAL É A FONTE: Terapia Comportamental Dialética (DBT), protocolo desenvolvido por Marsha Linehan no fim dos anos 1980. O grupo de habilidades é um dos quatro pilares do protocolo padrão — junto com terapia individual, coach por telefone e equipe de consultoria. No formato multifamiliar, o grupo deixa de ser exclusivo de pacientes e passa a reunir, no mesmo encontro semanal, pacientes e familiares.
Há duas linhagens principais:
- DBT-A (DBT para Adolescentes) — formalizada por Alec Miller, Jill Rathus e Marsha Linehan em manual publicado em 2007 (DBT Skills Manual for Adolescents). Pais ou cuidadores participam do grupo de habilidades semanal junto com o adolescente. Há um módulo adicional, Walking the Middle Path (Caminho do Meio), específico para reduzir conflitos pais–filhos.
- Family Connections — programa de 12 semanas para familiares de adultos com TPB, formalizado por Perry Hoffman e Alan Fruzzetti em 2005 (Family Connections: A Program for Relatives of Persons With Borderline Personality Disorder). Aqui o paciente não participa — o grupo é apenas para familiares aprenderem as mesmas habilidades.
A Clínica Evidenciare oferece o formato multifamiliar baseado em DBT-A, com adaptações para casos adultos onde a família também participa. A escolha do formato depende do quadro clínico, da idade do paciente, e da configuração familiar — explico isso adiante.
Por que o protocolo existe
Nos primeiros anos de DBT, Linehan tratava sobretudo mulheres adultas com tendência suicida crônica e transtorno de personalidade borderline. O grupo de habilidades era exclusivamente para pacientes. Famílias entravam só pontualmente, em casos específicos.
Duas observações clínicas forçaram a revisão desse desenho.
Primeiro, em adolescentes, o paciente volta para casa todo dia. A “geografia do tratamento” é diferente do adulto: a maior parte das horas de vigília da adolescência acontece no ambiente familiar. Ensinar habilidades só ao adolescente significa, na prática, ensinar habilidades para uma pessoa que precisa aplicá-las em um ambiente que não as conhece, não as reforça, e às vezes ativamente as contradiz. Quando Miller, Rathus e Linehan adaptaram o protocolo para adolescentes nos anos 1990 e 2000, a primeira decisão foi incluir os pais no grupo de habilidades.
Segundo, no caso de adultos com TPB, familiares procuravam ajuda em paralelo — exaustos, culpados, sem repertório para responder a crises repetidas. Hoffman e Fruzzetti perceberam que essas famílias precisavam das mesmas habilidades que o paciente estava aprendendo: como validar sem concordar com o sofrimento; como tolerar o próprio mal-estar sem reagir; como manter limites sem hostilidade. Daí o Family Connections.
A lógica em ambos os casos é a mesma:
O ambiente em que o paciente vive é parte do tratamento. Quando familiares não aprendem as habilidades, eles continuam, sem intenção, ativando o sistema emocional do paciente nos mesmos pontos que a terapia individual está tentando dessensibilizar.
Isso não é culpabilizar a família. É reconhecer que o sistema emocional não para na porta do consultório.
A estrutura do grupo multifamiliar
O grupo multifamiliar funciona como uma aula estruturada, não como terapia de grupo tradicional. Há plano de aula, há agenda, há lições de casa, há revisão semanal. Quem espera um espaço de desabafo em roda — esse não é o formato.
Encontros semanais
Em geral, encontros de duas horas, uma vez por semana, com duração de seis meses a um ano por ciclo completo. Cada família tem um lugar fixo. A configuração da sala costuma ser em U, com os terapeutas à frente, em formato didático.
Quatro módulos de habilidades
Os mesmos quatro módulos da DBT padrão, com adaptação de linguagem e exemplos para o contexto familiar:
- Mindfulness (atenção plena) — a habilidade base, ensinada no início de cada ciclo e revisitada antes de cada novo módulo. Não é meditação no sentido espiritual — é treino de observar a experiência interna sem reagir automaticamente.
- Regulação emocional — identificar, nomear e modular as próprias emoções. Inclui o que Linehan chama de redução da vulnerabilidade emocional (sono, alimentação, exercício, evitar substâncias) e estratégias para mudar emoções que não servem ao momento.
- Tolerância ao mal-estar — sobreviver a crises sem piorar a situação. Inclui técnicas físicas (temperatura, exercício intenso, respiração paralela) e cognitivas (aceitação radical).
- Efetividade interpessoal — pedir o que se precisa, dizer não, manter o respeito próprio e a relação. Para familiares, esse módulo aborda também como pôr limite sem hostilizar.
No DBT-A, há ainda um módulo adicional Walking the Middle Path (Caminho do Meio), específico para reduzir o que Rathus e Miller identificaram como os três dilemas dialéticos pais-adolescentes: tolerância excessiva versus controle excessivo, normalização versus patologização, e independência forçada versus dependência forçada.
Lições de casa
Toda semana, o grupo recebe tarefa. Em geral é uma habilidade específica para praticar no dia a dia, com registro escrito do que aconteceu (gatilho, emoção, habilidade tentada, resultado). Na semana seguinte, o grupo abre revisando as lições. Quem não fez, não fez — não há punição, mas há retomada da habilidade.
Coach por telefone
Tanto pacientes quanto familiares têm acesso a coach por telefone entre sessões — uma ligação breve com o terapeuta para aplicar uma habilidade em uma situação real, ao vivo. Não é terapia. Não é desabafo. É treino assistido na hora em que importa.
Multifamiliar não é terapia familiar
Esta é a confusão mais frequente, e por isso temos um texto inteiro sobre essa distinção. De maneira resumida:
- Terapia familiar tradicional investiga padrões de interação, narrativas familiares, alianças, fronteiras geracionais. Trabalha o sistema familiar como objeto clínico. Pode ser conduzida por diferentes escolas (sistêmica, estrutural, narrativa) e o paciente identificado é a família.
- Treinamento multifamiliar DBT ensina habilidades específicas e validadas para regulação emocional, em formato de aula. O paciente identificado é o membro com desregulação emocional intensa; a família é parte do tratamento porque o ambiente é parte do problema clínico. Não há análise de dinâmica familiar no grupo.
As duas modalidades podem ser complementares em alguns casos, mas não substituem uma à outra.
Para quem é indicado
O treinamento multifamiliar DBT tem indicação primária para:
- Adolescentes com autolesão, ideação suicida, comportamento de risco, desregulação emocional intensa, traços de TPB em consolidação, ou diagnóstico fechado de TPB precoce.
- Famílias de adultos com TPB ou desregulação intensa, onde a convivência diária está deteriorada e o paciente já está em terapia DBT individual.
- Cônjuges de pacientes com TPB, em formato adaptado (em geral via Family Connections).
- Cuidadores de pacientes com transtornos alimentares com forte componente de desregulação (em revisão recente, Healthcare, 2024, aponta o tratamento multifamiliar como parte do repertório validado para anorexia com desregulação emocional).
Há também perfis em que não recomendamos, e isso importa tanto quanto saber para quem o protocolo funciona.
Evidência clínica
A base de evidência do treinamento multifamiliar DBT cresceu de forma consistente nos últimos quinze anos, sobretudo no público adolescente.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 no Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology sintetizou os resultados de DBT-A (formato multifamiliar) e mostrou redução significativa de autolesão, ideação suicida e admissões psiquiátricas em adolescentes que completam o protocolo. Os efeitos persistem em seguimento de seis meses a um ano após o término.
Um estudo norueguês de 2024 publicado no BMC Psychiatry avaliou DBT-A em prática clínica de rotina (não em ensaio controlado) e encontrou reduções clinicamente significativas em sintomas depressivos, ideação suicida e autolesão em adolescentes atendidos em serviço público de saúde mental.
No Family Connections para adultos, a evidência mais robusta vem do estudo multicêntrico de Liljedahl e colaboradores publicado em 2019 em Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation, que comparou diferentes intensidades de Family Connections em famílias geograficamente isoladas e mostrou redução de carga subjetiva, depressão e raiva nos familiares, independentemente do formato (presencial intensivo ou semanal). Isto é, a habilidade aprendida transfere — não depende de retiro presencial.
Em transtornos alimentares com desregulação emocional, a já citada revisão de 2024 no Healthcare incluiu DBT multifamiliar entre as intervenções com efeito consistente para anorexia em adolescentes (Cogodi e cols., 2024).
É importante destacar que a maior parte da evidência se concentra em adolescentes — em adultos, o protocolo Family Connections tem evidência sólida, mas menor número de ensaios randomizados controlados. Em formato virtual (telessaúde), estudos exploratórios recentes apontam viabilidade e bons desfechos em grupos virtuais de cuidadores adolescentes (Hare e cols., 2026).
O papel da família no tratamento — além do apoio
Há uma narrativa pública sobre famílias de pacientes com desregulação que oscila entre dois extremos: ou a família é a vilã que causou o quadro, ou a família é heroína silenciosa que sustenta o paciente. Nenhum dos dois descreve a realidade clínica.
A leitura DBT é diferente. A teoria biossocial de Linehan propõe que desregulação emocional intensa emerge da interação prolongada entre uma vulnerabilidade biológica e um ambiente invalidante. Ambiente invalidante não é sinônimo de família ruim — é qualquer contexto que, sistematicamente, comunica à pessoa que sua experiência emocional é exagerada, inadequada ou inexistente. Pode ser escola, parceiro, igreja, equipe de trabalho — em geral, é a família, porque é onde a pessoa passa mais tempo nos anos formativos.
A família que entra no grupo multifamiliar não recebe rótulo de causa. Recebe ferramenta. Aprende a validar sem concordar, a tolerar o próprio mal-estar diante de crises, a manter limites sem rejeitar a pessoa. O texto sobre o papel da família aprofunda essa lógica.
Como saber se o grupo é mesmo DBT multifamiliar
Algumas perguntas que vale fazer ao procurar serviço:
- Os terapeutas têm formação completa em DBT? Curso introdutório não basta. DBT-A exige formação adicional.
- O grupo tem currículo estruturado baseado em Miller, Rathus e Linehan (adolescentes) ou Hoffman e Fruzzetti (Family Connections para adultos)?
- Há terapia individual disponível para o paciente em paralelo? Multifamiliar sem terapia individual não é DBT — é grupo psicoeducativo.
- Há coach por telefone para pacientes e familiares?
- Os terapeutas participam de equipe de consultoria DBT que se reúne com regularidade?
Se a resposta a qualquer uma é não, o grupo pode ser útil, mas não é DBT multifamiliar no sentido técnico. Em casos de autolesão recorrente, tendência suicida ou TPB de gravidade significativa, essa distinção pesa.
O que esperar nos primeiros meses
Nas primeiras semanas, costuma haver um período de ambivalência intensa das duas partes. O adolescente reluta em fazer “mais uma terapia”. Os pais oscilam entre alívio (alguém está cuidando) e ansiedade (vão me responsabilizar?). Esse desconforto inicial é esperado e parte do processo.
Os primeiros ganhos costumam aparecer entre a oitava e a décima segunda semana — em geral, redução da frequência de crises, melhora discreta na comunicação em momentos calmos, maior repertório das duas partes para evitar escaladas. Mudanças mais profundas (redução de autolesão, estabilização emocional sustentada, melhora de funcionamento escolar/laboral) costumam aparecer no segundo ciclo de seis meses.
No Family Connections para adultos, a literatura mostra que famílias relatam redução significativa de carga subjetiva e raiva já nas primeiras 12 semanas — efeito que se mantém em seguimento.
Quando o grupo multifamiliar não é o caminho
O treinamento multifamiliar tem contraindicações. Não é o formato adequado quando:
- A relação familiar tem histórico ativo de violência física ou abuso em curso — o grupo não substitui medidas de proteção e em alguns casos pode reativar trauma.
- O paciente está em descompensação psicótica aguda — outros protocolos vêm primeiro.
- Há uso de substância em padrão grave não tratado — em geral, o eixo da substância precisa de estabilização paralela antes.
- A família não consegue se comprometer com presença semanal durante seis meses a um ano — o protocolo perde eficácia em frequência intermitente.
O texto sobre quando indicar multifamiliar detalha cada um desses perfis e o que oferecemos em alternativa.
Onde começar
Se você está procurando o grupo multifamiliar para sua família, o caminho prático é:
- Identificar serviço com equipe DBT completa, não terapeuta individual isolado.
- Pedir descrição do currículo do grupo multifamiliar: módulos, número de semanas, frequência, conteúdo de cada módulo. Currículo claro é sinal de protocolo seguido.
- Garantir que há terapia individual em paralelo para o paciente identificado.
- Comprometer-se com a presença semanal por pelo menos seis meses antes de avaliar resposta.
A Clínica Evidenciare oferece o treinamento multifamiliar DBT em Londrina-PR, presencialmente, com equipe formada nos protocolos de Miller, Rathus e Linehan (DBT-A) e Hoffman e Fruzzetti (Family Connections). Atendemos também adolescentes e famílias de outras cidades em formato híbrido quando o quadro clínico permite.
Referências que valem a pena
- Miller, A. L., Rathus, J. H., & Linehan, M. M. (2007). Dialectical Behavior Therapy with Suicidal Adolescents. New York: Guilford Press.
- Rathus, J. H., & Miller, A. L. (2015). DBT Skills Manual for Adolescents. Guilford Press.
- Hoffman, P. D., & Fruzzetti, A. E. (2005). Family Connections: A program for relatives of persons with borderline personality disorder. Family Process, 44(2), 217–225.
- Liljedahl, S. I., e cols. (2019). Family Connections in different settings and intensities for underserved and geographically isolated families. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation.
- Syversen, A. M., e cols. (2024). Evaluation of dialectical behavior therapy for adolescents in routine clinical practice. BMC Psychiatry.
- Cogodi, E., e cols. (2024). Emotional Dysregulation in Anorexia Nervosa: Scoping Review of Psychological Treatments. Healthcare.
A Clínica Evidenciare atende com protocolos baseados em evidência. Se você ou alguém próximo está em sofrimento intenso, ligue CVV 188 (gratuito, 24h, sigiloso). Para informações sobre o grupo multifamiliar DBT e avaliação de indicação, escreva para [email protected].